quinta-feira, 4 de junho de 2009

"Divã" - Capítulo 1



O INÍCIO



Estou eu aqui.

Dentro de uma sala, com uma pessoa que nunca vi antes para contar meus problemas, anseios, desejos e trajetória de vida.

Chega ser engraçado!

Nunca imaginei que fosse me defrontar com essa situação que há tempos já não é mais tão peculiar como antigamente. Mesmo sabendo que não é tão incomum, eu sempre desejei não precisar estar numa sala toda decorada, com uma pessoa estranha e conversando sobre mim, sobre minha vida.


- Então... você é o Eduardo?

- Sim, sou eu. Por quê? Algo de errado?

- Não! – Respondeu de supetão. – Você já fez algum tipo de terapia ou de estudo com algum psicólogo?

- Não, é a primeira vez que venho em um médico de louco, se é isso que me pergunta.

Ela sorri e se desloca até a mesa de cafezinho para pegar um copo de água.

-Quer dizer que você acha que ser psicólogo é tratar de loucos?

- Sim. – olho de um lado para o outro com o desejo reprimido de se levantar e se ausentar daquela sala isolada de barulhos.

- Pois é. Então iremos conversar primeiramente disso.


Depois da longa explicação, ela perguntou-me se eu gostaria de beber um copo de água e se estava à vontade.

Como aquilo tudo me incomodava, eu permanecia calado para não falar alguma bobagem e acabar estragando a minha primeira sessão.

Eu estava deitado em uma poltrona – quase uma cama – vermelha, com algumas almofadas grandes, até que bem confortáveis, o mais conhecido como Divã.

Até que dessa parte eu não tinha muito do que reclamar. Tinha que reconhecer que apesar de estar bastante receoso de contar minha vida inteira, aquela “cama” era acolhedora e confortável. Porém, não era o suficiente.


- Eu sei que o senhorio não está muito à vontade nesta sala, eu também ainda não consegui me acostumar com ela. – disse com uma voz tranqüila com um toque de ironia. E também você não é o primeiro a estranhar e a ficar calado de uma hora para a outra. Cá para nós, a maioria dos pacientes que vem aqui pela primeira vez, fica com essa mesma cara e às vezes demoram sessões para falar alguma coisa que realmente interessa para o tratamento.

- Sim, eu entendo. Mas...

- Mas...?

- É que eu sou um pouco fechado dependendo da situação. E para ser sincero, essa é uma. Eu não sei exatamente como começar.

- Que tal começar do inicio? Essa é aquela parte que você começa falando como foi sua infância, como seus pais te tratavam, se você era um bom aluno... E se possível, rápido, porque já se passaram trinta minutos da sua primeira sessão e nada de falarmos de você. – completou com um semblante calmo e dando algumas risadas.

- Ok. Pode ser.

Logo comecei a falar de minha vida particular, contando as coisas que eu lembrava: do que eu gostava, o que eu fazia, como era o dia a dia.


Eu lembro que adorava brincar na rua quando era menor. Acordava às nove da manhã para fazer o dever e me aprontar para ir à escola. Para mim sempre foi uma festa esta parte de estar com meus coleguinhas.

Após sair do colégio, minha mãe ia me buscar e eu ia direto para a casa. Trocava de roupa e corria para a rua. Lá era meu lugar. Era o local que eu mais me sentia livre para ser quem sempre fui. Brincava de várias brincadeiras de rua: pique pega, bandeirinha estourada, pique esconde... Enfim, era o local ideal.

Se diversão não fosse uma coisa ou sentimento inanimado, essa seria eu.

Como eu gostava. Sentia-me livre. Sentia-me feliz.


- Eduardo?

Senti algo me cutucando e quando dei por mim era minha psicóloga.

- Oi. O que?

- Sua sessão acabou e... acorda! Você me conta histórias e viaja. – sorriu discretamente.

Dei uma gargalhada.

- A é? Perdoe-me! É que quando me lembro dessas coisas, me dá saudades. Pena que isso não pode voltar. Eu aceitaria me mandar para o passado e ficar por um tempo lá, recordando o tempo em que eu não tinha problemas e que tudo era um paraíso.

- Pois é. Mas isso não se faz possível ainda. Olha, vamos marcar sua próxima sessão para... Hoje é segunda-feira... Marcaremos para quarta, pode ser?

- Sim. Pode.

- Então está marcado. Vejo-te quarta-feira às três da tarde, ta?!

- Estarei aqui. E obrigado, realmente falar um pouco para um desconhecido pode ser a saída para muitas coisas.

Ela sorriu, eu também. E fui caminhando para a porta...

- Tchau! – ela disse.

- Até mais.


7 comentários:

Anônimo disse...

Fenomenal Luh! Vc me surpreendeu mais uma vez...
Chega a ser genial esse texto! Adorei demais... tive que ler mais de uma vez! Pareceu tão real... muito bom!

Amo vc!
Beijos, Vinny!

Ana Luíse* disse...

Oi luh.
adorei o texto, quero ler a continuação.
teu blog tá bombando amigo.

beijão.

Aninha

Ronaldo Moreno disse...

A rua tbm era meu lugar... AHUauhuhAHUHAuhaHUahu

Adorei "O Início" Lulu! Continua isso logo!! aHUauhaHUauh

Bjo!

Luís Freire disse...

Obrigado galera...
Fico lisonjeado por cada comentário que chega.
Seja de crítica ou uma simples passagem.
Abraços a todos.

Milla disse...

Adoreeii... deuu atée praa imaginaarr a cenaa aqii uaai.. hehe... cmoo sempree vc superandoo... =D...
Adoooorooo...!!!! \o/
Beijaoooooo Luísinhooo...ber

Manuzinha disse...

Uii.
Comoo sempre meu amigo Luis, escrevendo super hiper bem neh??
Parabéns msm.!!

e Mtooo Sucesso..!!

Beijos..queridoo.!!

Manu

Anne One disse...

começo de terapia é f. em todas as sessões.

dificilmente a gente já chega sabendo do que vai falar. Pensa em desmarcar, porque vai ser em vão...

e sai de lá com a certeza de ter feito a melhor escolha da vida praquela uma hora - que fica tão curta, meu Deus!...