sábado, 6 de junho de 2009

"Divã" - Capítulo 2


RE-LEMBRANDO


[Eduardo] Eu sempre me sentia bem com todos os estilos de amizade que eu tinha. Não parava muito para pensar em alguma atitude, ou algo que havia deixado de fazer ou falar.

Minha infância foi tranqüila, nada extraordinário.

Além das coisas que contei na primeira sessão, lembro-me bem de que meu pai, como até hoje, vivia viajando. Ele morou em várias cidades de estados diferentes e dependendo da onde estava, vinha quando dava. Cheguei várias vezes a ficar sem ver meu pai durante meses. Todos achavam, ou pelo menos a maioria das pessoas, que eu não dava por falta de meu pai. Eu até me recordo também das vezes quando ele chegava sexta-feira e passava o final de semana conosco para que no domingo pudesse viajar novamente, e eu ficava ali na porta, esperando ele passar só para que eu pudesse dar-lhe um beijo e me despedir. Logo depois, eu começava a chorar. Ficava em prantos quando meu pai ia embora. Minha mãe, coitada, abraçava-me e confortava-me. Não adiantava muito, no entanto, ela o fazia. Estava sempre ali.


Naquele momento, um choro descompassado tomava conta de mim. Eu não sabia se chorava pelas coisas tristes que lembrei, ou se ria pelas coisas boas.

Só sei que me vieram mistos de sentimentos e eu ficava ali, olhando para a Dra. Laura e não sabendo mais como me controlar.


- Calma. – estendeu-me a mão dando-me um lenço.

- Obrigado. – respondi estendendo o braço e pegando-o.

- Você culpa seu pai por algum comportamento seu na época ou de agora?

- Na verdade, não. Só queria que ele tivesse ficado mais tempo comigo.

- É, são grandes emoções. Você está bem?

- Sim, estou. Mais uma vez, obrigado pelo lenço.

- Sua sessão está acabando, mas antes queria que você ficasse com esse papel. Quando estiveres triste, é só lê-lo. Irá te ajudar.


No papel, havia uma citação escrita em caneta vermelha, com as letras bordadas parecendo de convite de casamento, dizendo assim: “Pouco importa o que aconteceu no passado – por mais cedo que tenha acontecido –, levante a cabeça e siga em frente. Um erro nunca persiste a vida inteira, a não ser que você sempre deseje isso”.

Ao ler, dei um sorriso largo e agradeci.

Senti um conforto por ter conseguido contar fatos que eu guardara por tanto tempo.

Apertei a mão da doutora Laura e saí pela porta, cantando, alegre, sorridente.

Dei um tchau para a secretária e desci pelo elevador.

Eu já não achava mais aquela sala estranha. Além de sentir-me bem na rua quando criança, agora também me sentia vivo e em meu próprio espaço ali dentro.

5 comentários:

Ana Luíse* disse...

“Pouco importa o que aconteceu no passado – por mais cedo que tenha acontecido –, levante a cabeça e siga em frente. Um erro nunca persiste a vida inteira, a não ser que você sempre deseje isso”.


Nossa, ta cada vez mais gostoso de ler, vc conseguiu passar muito bem o que queria.
eu não consigo fazer textos com personagens, eu só consigo escrever sobre temas..
adoreii isso.

beijo

Manuzinha disse...

Parabensss Luis..!! Perfect.!

Anônimo disse...

estooou esperando os próximos capítulos! vou parar de ficar te perturbando e te chamando na janela, que é pra ver se você tem mais tempo livre para escrever pra nós :D
hahuahuahaua
tô gostando, continuaaa icke!

beijo!
mariela

mari disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anne One disse...

Um erro nunca persiste a vida inteira, a não ser que você sempre deseje isso.

Lu!!
Precisamos lembrar disso todos, todos os dias!!!!!!! Todas as horas!!!!!!

Não se pode mudar o passado, hunf.
Vamos construir coisas boas, meu querido!